27 de jan de 2012

O Maneirismo na Lírica de Camões - IV.

O MUNDO DESCONCERTADO



Tem o tempo sua ordem já sabida;

o mundo não; mas anda tão confuso,

que parece que dela Deus se esquece.

Camões



O mundo, como a vida, é visto igualmente sob o prisma de um exacerbado negativismo pelos poetas maneiristas. Para eles, o mundo é cruel, enganador; é lugar onde imperam a maldade, a desgraça, o caos, os conflitos; onde o homem é espreitado por perigos de toda espécie, onde caminhará, como vítima de um inclemente calvário, até o instante final.
Integra-se nessa linha o tema do “mundo desconcertado”, que abre espaço para queixas e críticas dos poetas contra a desordem, a injustiça, a corrupção e a inversão de valores prevalecentes na sociedade do seu tempo, que Camões tão bem traduz em sua lírica, prodigalizando lamentos por tais desconcertos.
No longo poema que escreveu sobre o assunto, Oitavas a um amigo sobre o desconcerto do mundo, o poeta vai enumerando e analisando, melancólica e criticamente, o espetáculo que o mundo proporciona, protagonizado pelas mais diversas facetas que assumem os desequilíbrios sociais e morais dos quais ninguém está isento:


Quem pode ser no mundo tão quieto,
Ou quem terá tão livre o pensamento,
Quem tão exp’rimentado e tão discreto,
Tão fora, enfim, de humano entendimento
Que, ou com público efeito, ou com secreto,
Lhe não revolva e espante o sentimento,
Deixando-lhe o juízo quase incerto,
Ver e notar do mundo o desconcerto?


É importante notar que o poeta rejeita qualquer manifestação de espanto por parte dos homens sensíveis, dos homens conscientes, perante a realidade caótica de um mundo às avessas, transtornado pelo “desconcerto”





Em outros passos de sua lírica, Camões torna a fazer do “desconcerto do mundo” matéria poética, mercê da reflexão sobre a condição do homem em meio à desordem, à inversão de valores e à injustiça que prevalecem numa sociedade cujo mal era, antes de tudo, moral:


Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos
E, para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.


No soneto Correm turvas as águas deste rio, Camões retoma as suas reflexões sobre as manifestações do desconcerto do mundo social contrapondo-se à ordem do tempo natural em sua previsibilidade e constância:


Correm turvas as águas deste rio,
Que as do céu e as do monte enturbaram;
Os campos florescidos se secaram;
Intratável se fez o vale, e frio.


Passou o verão, passou o ardente estio;
as cousas por outras se trocaram;
Os fementidos Fados já deixaram
Do mundo o regimento ou desvario.


Tem o tempo a sua ordem já sabida;
O mundo não; mas anda tão confuso,
Que parece que dele Deus se esquece.


Casos, opiniões, natura e uso
Fazem que nos pareça desta vida
Que não há nela mais que o que parece.


Também Os Lusíadas são pontilhados por versos críticos, quando não amargos, contra os destrambelhos que o poeta observa na sociedade do seu tempo. Nos exórdios, que encerram sete dos dez cantos, por exemplo, sobressaem a melancolia, o desengano, o pessimismo, a consciência do autor acerca do desconcerto do mundo e da insignificância do homem, tão genuinamente maneiristas.
O Maneirismo, conforme ficou explicitado, ultrapassa a mera expressão de uma crise espiritual. No entender de Gustav René Hocke, mais que isso, ele significa a tomada de consciência do homem acerca “de um mundo que se desagrega e de uma crise epocal.” A essa crise, que afeta a todos, se soma, por inevitável conseqüência, uma desencantada visão do real, geradora de uma inquietude que, em muitos casos, se exaspera em amargura, suscitando versos que expressam o non sense do mundo e, nele, o papel protagonizado pelo homem: o de um ser esmagado pela aflição e invadido por impotente angústia.


Autora: Zenóbia Collares Moreira, O Maneirismo na Lírica de Camões, Natal/ 2007.






24 de jan de 2012

O Maneirismo na Lírica de Camões - Parte V.


O TEMPO E A ANGÚSTIA DA MUDANÇA

Todas as cousas vejo mudadas,
Porque o tempo ligeiro não consente
Que estejam de firmeza acompanhadas.
Camões

Na temática maneirista, a imagem do tempo em seu fluir contínuo e a consciência da ação modificadora e destruidora que exerce sobre o homem e as coisas estão sempre associadas à angústia pela instabilidade e pela fugacidade da duração da vida.
Nas reflexões dos poetas acerca do tempo não é a constatação de que todas as coisas se submetem a uma constante mutação o que figura como motivo de tristeza e lamentações. O que os perturba de maneira muito especial é o trágico e paradoxal contraste - já poetizado por Horácio em uma das suas odes - entre o tempo natural e o tempo humano. Submetida à ordem do tempo natural, a natureza passa por um processo de mudança que lhe assegura uma renovação cíclica e contínua, que não tem correspondência na vida humana. O tempo humano é inexoravelmente linear e irreversível. As alterações que, em sua passagem, vai impondo ao homem são para pior, na medida em que este só tem uma direção a seguir: a do desgaste físico, da degradação da mente e o caminho sem regresso para o fim da sua existência. O tempo é ainda um outro aliado da vida na mutabilidade das coisas, em sua enganadora e superficial regularidade, na inconstância de tudo. Tão célere em seu percurso, tão breve nas alegrias, instala-se com perspectivas de demora quando portador de mágoas, em que é pródigo.
A consciência aguçada acerca da fugacidade do tempo constitui o elemento centralizador do qual parte uma série de ramificações temáticas que lhe são tributárias: a efemeridade e a transitoriedade da vida, dos prazeres, da juventude, da beleza; a angústia e a impotência do homem perante a passagem do tempo, a qual o arrasta, gradativa e irreversivelmente, para a senilidade, para a decrepitude, para a morte.
A certeza da degradação e da finitude, aliada à convicção de que não existe escapatória ao processo de aniquilação física e mental a que está destinado, deveria estimular o homem a valorizar e a fruir avidamente o tempo presente, a sua juventude e a plenitude de sua energia vital enquanto isso lhe é possível. Todavia não é essa atitude de comprazimento com os apelos da vida e do corpo o que o inspira. Daí a ausência, no lirismo maneirista, do conhecido tema horaciano do carpe diem, expressão proveniente de uma citação do poeta latino que lembra a brevidade da vida e a fugacidade do tempo, sugerindo a máxima fruição do momento presente, a busca da felicidade imediata. Esse tema, juntamente com o do collige, virgo, rosas, outro exilado da lírica maneirista, eram encarecidos ao extremo pelos poetas renascentistas. Ambos os temas perderam o sentido ou a adequação perante a sombria e amarga mundividência maneirista, que, em nenhuma circunstância, se mostra aberta ao elogio da vida, à celebração dos prazeres terrenos. 

Em lugar do comprazimento com os falaciosos apelos do mundo, os poetas maneiristas preferem as alegrias do espírito, o refúgio em Deus; em lugar da fruição do momento presente, preferem sacrificá-lo em prol da bem-aventurança em um futuro projetado além da vida terrena, como afirma Camões nos versos finais das Redondilhas Babel e Sião:

Quem com disciplina crua
se fere mais que uma vez,
cuja alma de vícios nua,
faz nódoas na carne sua,
que já a carne n´alma fez;
e beato quem tomar
seus pensamentos recentes
e, em nascendo, os afogar,
por não virem a parar
em vícios graves e urgentes;
[...]
Ditoso quem se partir
para ti, terra excelente,
tão justo e tão penitente
que, depois de a ti subir,
lá descanse eternamente.
quem com eles logo der
na pedra do furor santo

O desencanto com a vida e a conseqüente reflexão acerca da condição humana, do destino do homem na vida terrena e na vida eterna bem como o temor de perder a bem-aventurança nesta última constituem uma das linhas temáticas mais desenvolvidas pelos poetas maneiristas.
O tema da mudança operada pelo fluir do tempo é freqüente na lírica de Camões. Na Canção X, ele expressa o nostálgico desejo de voltar no tempo, pois da vida já transcorrida na dor e na agonia só lhe restam as memórias da longínqua felicidade vivida no passado distante. Daí o seu desejo de um retorno, que sabe impossível, aos tempos pretéritos, nos quais se situa a sua ventura:

Que se possível fosse que tornasse
O tempo para trás, como a memória,
Pelos vestígios da primeira idade
E, de novo tecendo a antiga história
De meus doces errores, me levasse,
Pelas flores que vi da mocidade.

Consciente da irreversibilidade do tempo e das perdas decorrentes do seu fluir contínuo, o poeta sabe que desse tempo bom só lhe ficaram as “perpétuas saudades” do bem perdido:

Que me quereis, perpétuas saudades?
Com que esperança ainda me enganais?
Que o tempo que se vai não torna mais,
E se torna, não tornam as idades.
Razão é já, ó anos, que vos vades,
porque estes tão ligeiros que mostrais,
nem todos pera um gosto são iguais,
nem sempre são conformes as vontades.

Aquilo a que já quis é tão mudado,
Que quase é outra cousa; porque os dias
Têm o primeiro gosto já danado.
Esperanças de novas alegrias
não mas deixa a Fortuna e o Tempo errado,
que do contentamento são espias. 19

As únicas certezas que jamais falham são as de que o tempo é fugaz e irreversível, os anos transcorrem céleres e tudo está sujeito a mudança. A mudança, para os maneiristas, é encarada como a mais funesta e terrificante conseqüência da passagem do tempo, assumindo um significado que ultrapassa bastante o de simples e natural modificação física. Ela torna-se cruel, na medida em que, ao contrário do que ocorre na natureza, na qual obedece a uma seqüência cíclica, propiciadora da sucessão das estações e do seu retorno periódico, para o homem ela é linear e definitiva: nada do que mudou retorna ao seu estado anterior. O soneto camoniano que se segue tematiza esse aspecto aterrador da mudança:

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem – se algum houve – as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e enfim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto:
que não se muda já como soía.  20

Mais que as mudanças verificadas no físico do homem, aquela da qual se queixa Camões se traduz em transmudação verificada no “ser”, na “confiança”, nas “vontades”, bem como converte a felicidade e o prazer em infortúnio, a alegria e a esperança em tristeza e desilusão. Se alguma ventura houve, esta fica na saudade, assim como o mal sofrido permanece através da lembrança. No mais, tudo muda, tudo desaparece, salvo a própria mudança (“que não se muda já como soia”).
Em outro momento, Camões se mostra consciente da mudança ou da destruição causadas pelo fluir do tempo como um processo geral por que passam todas as coisas, não somente acarretando a passagem de um estado melhor para um outro pior, como propiciando uma situação inversa, menos pessimista em sua relatividade, como pode ser observado no soneto que se segue:

O tempo acaba o ano, o mês e a hora,
a força, a arte, a manha, a fortaleza;
o tempo acaba a fama e a riqueza,
o tempo o mesmo tempo de si chora.

O tempo busca e acaba o onde mora
qualquer ingratidão, qualquer dureza;
mas não pode acabar minha tristeza,
enquanto não quiserdes vós, Senhora.

O tempo o claro dia torna escuro,
e o mais belo prazer em choro triste
o tempo, a tempestade em gran bonança.

Mas de abrandar o tempo estou seguro
o peito de diamante, onde consiste
a pena e o prazer desta esperança.

Em outros momentos de sua obra, o poeta deixa de lado a racionalização acerca das metamorfoses causadas pela passagem do tempo nos sentimentos, nos estados de alma e na capacidade física das pessoas, dentre outras coisas, para expor melancolicamente a sua visão pessoal e pessimista acerca dos infortúnios e danos acarretados pelas mudanças:

E vi que todos os danos
se causavam das mudanças.
E as mudanças dos anos;
onde vi tantos enganos,
faz o tempo às esperanças.
Ali vi o maior bem
quão pouco espaço que dura,
o mal quão depressa vem,
e quão triste estado tem
quem se fia da ventura.
[...]
Vi ao Bem suceder o Mal
e ao Mal, muito pior.  21

Vale ressaltar que essa concepção da vida como desterro e prisão deriva da mundividência neoplatônica, sendo comum a alusão a essas imagens nas obras de muitos poetas maneiristas.
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Notas

 18- Luís de Camões, Op. cit., p. 235.
19- Soía: costumava, era costume. Luís de Camões, Op. cit., p. 199.
20-Luís de Camões, “Babel e Sião” in: Op. cit., p. 102-103.
21-Luís de Camões, Op. cit., v. II, p. 139.
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Zenóbia Collares Moreira. O Maneirismo na Lírica de Camões, Natal/2007.

O Maneirismo na Lírica de Camões - Parte VI.



A DICOTOMIA AMOR SENSUAL /AMOR PLATÔNICO

E sabei que, segundo o amor tiverdes,
tereis o entendimento de meus versos.
Camões

A tematização do amor, na lírica maneirista, segue duas tendências inteiramente opostas: uma que se manifesta como imagem negativa e condenatória do amor carnalmente consumado, da expressão sensual do desejo amoroso; outra, derivada da idealização neoplatônica, que o revela em termos os mais positivos. A primeira tendência domina quase inteiramente o espaço poético, acentuando-se o seu cultivo a partir das três últimas décadas do século XVI; a segunda, menos privilegiada pelos poetas, irrompe com mais freqüência na poesia de Camões, como será mostrado mais adiante, gerando tensões e contradições no conjunto de sua lírica.
Como explica Maria Vitalina Leal de Matos, a obra lírica de Camões “desenvolve-se toda ela em permanente antagonismo entre pólos opostos: sensibilidade e inteligência, amor sensual e amor espiritual, inocência e sentimento de culpa, humildade e orgulho são algumas das tendências opostas que solicitam em sentidos contrários essa poesia, fazendo dela o cenário de conflitos dolorosos onde sempre se procura a solução, o equilíbrio, a conciliação que raramente se encontra [...]. Em relação aos principais temas que o estimulam, Camões é levado a imaginar um modelo ideal, teórico: de perfeição, de racionalidade, de plenitude; mas a experiência desmente e desmorona essa construção da consciência. Então o poeta encontra-se dilacerado porque não pode deixar de aderir à tese que elabora e à antítese da experiência que a nega; na maioria dos casos sente-se incapaz de escolher; e quando escolhe, escolhe dividido, consciente de que metade de si lhe fica no que rejeita.”24

Assim, acrescenta a autora, na vertente da lírica camoniana que tematiza o sentimento amoroso, o antagonismo mais evidente radica na “coexistência do amor sensual – expresso em termos de um erotismo muito audacioso, e do amor espiritual de feição platônica que parece tudo dispensar da presença da amada, até mesmo o vê-la”, na certeza de “que nunca Amor se afina, nem se apura,/ enquanto está presente a causa dele”. 25
Nas poesias líricas dos poetas maneiristas que desenvolvem o tema do amor sensual, o que se observa, de modo geral, é a reiterada expressão de uma visão superlativamente sombria da experiência amorosa. Nela, o amor se configura como agente da acentuada instabilidade afetiva e emocional do amante, de aflitiva insegurança e de incertezas, como núcleo dinamizador de permanente desequilíbrio que arrasta o poeta a situações de natureza sumamente contraditória, senão oposta: alegria / tristeza; esperança/ desespero; engano/ desengano; amor/ ódio, etc. Como ocorre nas obras poéticas dos seus contemporâneos, também em sua lírica Camões prodigaliza exemplos dos malefícios do amor. Na opinião do poeta, “não pode no mundo haver tristeza/ em cuja causa Amor não tenha parte”. Daí a sua indagação aos que sofrem padecimentos amorosos: “se das dores de amor sois maltratados,/ porque tanto buscais de amor as dores?”
Toda essa vivência negativa tem como conseqüência o desconcerto sentimental do homem enamorado, resultando em expressões de recusa ou de execração do amor, da experiência amorosa, da qual derivam dor e frustração constantes. O discurso que radica na experiência do amor denuncia, com cores fortes, os malefícios e os desenganos, as causas e os efeitos do drama amoroso. O amor sensual, consumado ou não no plano da experiência carnal, quando não é tragicamente ensombrado por toda sorte de males, revela-se irremediavelmente implicado com a saudade, a insatisfação, a perda através da morte ou da ausência física, com o sentimento da culpa e do pecado. Desse modo, o pathos amoroso dinamiza o campo subjetivo dos poetas a partir da experiência já vivida e da ausência da mulher amada, nutrindo-se das lembranças do passado, fazendo desse ser eleito pelo coração e da própria felicidade, perdidos no tempo e na distância, o objeto das suas reminiscências. Não importa se é uma ausência em razão de uma separação imposta pelo distanciamento no tempo ou no espaço, se é uma ausência causada pela morte ou pela perda da reciprocidade amorosa, o fato é que jamais o homem e a mulher caminham juntos, de mãos enlaçadas; jamais se encontram diante um do outro, mergulhados na horizontalidade do olhar de um no olhar do outro. Daí os discursos da frustração: todo amor acaba no drama da separação ou da saturação; a amargura sucede irrecorrivelmente ao prazer; a alegria cede lugar à tristeza; o engano remete ao desengano e, deste, à melancolia, ao desespero, à descrença. Emerge sempre dessa situação um lirismo subjetivo, prenhe de confessionalismo e confidências reveladoras da aflição e da mágoa, do desespero e da angústia, dos enleios do sonho, que revestem na sua expressão um timbre de melancólico desalento e amarga resignação:

Quem vos levou de mim, saudoso estado,
que tanta sem-razão comigo usastes?
Quem foi por quem tão presto me negastes,
esquecido de todo o bem passado?

Trocastes-me um descanso em um cuidado
tão duro, tão cruel qual me ordenastes;
a fé que tínheis dado me negastes,
quando mais nela estava confiado.

Vivia sem receio deste mal.
Fortuna, que tem tudo à mercê,
amor com desamor me devolveu.

Bem sei que neste caso nada vale,
que quem nasceu chorando, justo é
que pague com chorar o que perdeu. 26

A melancolia e a angústia derivadas da mundividência maneirista atravessam toda a poesia que tematiza o amor sensual, denunciando a já aludida visão negativa do amor cultivada pelos poetas, que parecem não admitir a possibilidade de o amor ser uma experiência enriquecedora vivenciada em um clima de comprazimento, de alegria e de intensidade erótica, na plenitude do gozo e na legitimidade da fruição do prazer carnal. Muitos dentre eles, principalmente na fase finissecular do Maneirismo, passaram a cultivar a equivocada concepção de que o amor humano só propicia a frustração e a dor do desengano, o sofrimento, a tristeza e o aniquilamento moral e afetivo do homem. Na obra de Diogo Bernardes, por exemplo, não há um só verso indicativo da alegria nascida da satisfação de um anseio amoroso. É sempre ele que, ardendo na chama de uma paixão não retribuída, se dirige à mulher amada, em termos de respeitoso queixume ou de magoada súplica: “Quantas penas, Amor, quantos cuidados, / Quantas lágrimas tristes, sem proveito, [...] Quantos mortais suspiros derramados, / Quantos males enfim tu me tens feito”. 27

Camões não fica aquém dos seus contemporâneos, quando se trata de expressar os males que sofreu ao longo da vida por causa do amor. Mesmo quando se queixa reiteradamente da perseguição da “inexorável Fortuna” e dos próprios “erros” cometidos, que tantos padecimentos lhe trouxeram, o poeta culpabiliza o amor por suas vicissitudes amorosas. Ele é a causa das suas frementes angústias, padecimentos e agitações interiores. Vários sonetos abordam o tema:

Erros meus, má fortuna, amor ardente
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a fortuna sobejaram,
Que pera mim bastava amor somente.

Tudo passei; mas tenho tão presente
a grande dor das cousas que passaram,
que as magoadas iras me ensinaram
a não querer já nunca ser contente.

Errei todo o discurso dos meus anos;
dei causa [a] que a fortuna castigasse
as minhas mal fundadas esperanças.

De amor não vi senão breves enganos
Oh! quem tanto pudesse, que fartasse
este meu duro Gênio de vinganças! 28


Oh! Quão caro me custa o entender-te,
Molesto Amor, que só por alcançar-te,
De dor em dor me tens trazido a parte
Onde em ti ódio e ira se converte!

Cuidei que, pêra em tudo conhecer-te,
me não faltasse experiência e arte;
agora vejo na alma acrescentar-te
aquilo que era causa de perder-te.

Estavas tão secreto no meu peito,
que eu mesmo, que te tinha, não sabia
que me senhoreavas deste jeito.

Descobriste-te agora; e foi por via
que teu descobrimento e meu defeito,
um me envergonha e outro me injuria.

Nem sempre o amor é apresentado na lírica camoniana em consonância com as doutrinas neoplatônicas, ou seja, como um princípio de harmonia e via de ascensão espiritual do homem. Ao contrário disso, nela o amor apresenta características e qualificações que denunciam o seu caráter disfórico.
Na Écloga II, por exemplo, o poeta põe nas falas de Agrário toda a linguagem da descrença na bondade do amor, concebido como uma entidade maléfica, portadora de tormentos, insânia e toda sorte de infortúnios:

Não é amor, se não vier
Com doudices, desonras, dissensões,
Pazes, guerras, prazer e desprazer,
Perigos, línguas más, murmurações,
Ciúmes, arruídos, competências,
Temores, mortes, nojos, perdições.
Estas são verdadeiras experiências
De quem põe o desejo onde não deve,
De quem engana alheias inocências.
Mas isto tem Amor, que se escreve
Senão onde é ilícito e custoso;
E onde é mor o perigo mais se atreve.

Contrapondo-se à visão sombria e negativa do amor, antes referida, os neoplatônicos recusam os atributos maléficos desse sentimento, considerando-o, como esclarece Vítor Manuel de Aguiar e Silva, como um bem não contaminado “princípio de ascensão espiritual e de redenção individual e cósmica.” 29 Assim sendo, o amor, segundo a doutrina neoplatônica, relaciona-se com a inteligência divina e, como tal, é em sua essência um sentimento harmonioso e sereno, uma força capaz de encaminhar o homem ao conhecimento e conduzi-lo a um estágio elevado de aperfeiçomento. “Por conseguinte, no âmbito da doutrina neoplatônica ou de uma doutrina neoplatonizante do amor, não são logicamente concebíveis a condenação fundadas em razões éticas, metafísicas e religiosas, do amor, nem a expressão do arrependimento e do remorso por se ter vivido, na plenitude harmoniosa da sua dimensão humana e da sua dimensão divina, o sentimento amoroso.” 30

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20 de jan de 2012

O Maneirismo na Lírica de Camões - Parte VII.

A SAUDADE E A IDEALIZAÇÃO DO AMOR

Enquanto houver no mundo saudade
Quero que seja sempre celebrada.
Camões

Relacionadas tanto à temática amorosa de pendor sensual quanto à de índole neoplatônica, irrompem com muita freqüência na poesia dos maneiristas composições que expressam a saudade da mulher amada, do amor perdido ou a saudade da felicidade passada. Como lembra Maria Vitalina Leal Matos, a forma mais comum de vivenciar o amor “consiste na saudade, seja ela encarada, segundo o neoplatonismo, como a ausência que se torna condição de aperfeiçoamento, seja como a ausência que é sentida como carência insuportável.” 36.   A saudade exprime também outro momento da angústia na poesia dos maneiristas: aquele em que a memória se obstina na recordação dolorosa de um bem que se teve e que se perdeu na distância ou no tempo pretérito. Toda a satisfação passada se reduz à mágoa e ao desprazer, porque provém exclusivamente de lembranças cuja realidade, que tem a mesma consistência do sonho, já se esvaíra.
Camões escreveu vários sonetos tematizando a saudade da felicidade perdida, ou a dor proveniente da ausência da mulher amada. Sem a amada, só lhe resta chorar no tempo presente as memórias de um outro já pretérito:

Doce contentamento já passado
Em que todo o meu bem já consistia,
Quem vos levou da minha companhia
E me deixou de vós tão apartado?

Quem cuidou que se visse neste estado,
naquelas breves horas de alegria,
quando minha ventura consentia
que de enganos vivesse meu cuidado?

Fortuna minha foi cruel e dura
aquela que causou meu perdimento,
com a qual ninguém pode ter cautela.

Nem se engane nenhuma criatura,
que não pode nenhum impedimento
fugir do que [lhe] ordena sua estrela.

A experiência da saudade leva o enamorado à tentativa de recuperar o amor e a mulher amada através da memória, da reminiscência do bem distante, mais das vezes situado num tempo já bem recuado. Todavia a rememoração do que perdeu não o liberta do sentimento de frustração e tristeza provocado pela recordação do passado; antes intensifica a dor da ausência e o sentimento de perda:

Doces lembranças da passada glória,
que me tirou Fortuna roubadora,
deixai-me repousar em paz uma hora,
que comigo ganhais pouca vitória.

Impressa tenho na alma a larga história
desse passado bem, que nunca fora;
ou fora, e não passara; mas já agora
em mim não pode haver mais que a memória.

Vivo em lembranças, mouro de esquecido
de quem sempre devera ser lembrado,
se lhe lembrara estado tão contente.

Oh! quem tornar pudera a ser nascido!
Soubera-me lograr do bem passado,
se conhecer soubera o mal presente.

Nas poesias dos maneiristas, a mulher amada está sempre distanciada do homem dela enamorado, mesmo quando o amor é correspondido. O discurso do amante é sempre um solilóquio doloroso, muitas vezes expressando o padecimento presente em razão das reminiscências do bem perdido ou distante, as quais ele preferiria apagar da lembrança, pois não devolvem as alegrias passadas: “antes me põe [as lembranças] diante o bem perdido”, como se queixa Diogo Bernardes, ou “fazem tanto mal ao pensamento”, conforme escreve Camões. O drama da ausência é, assim, protagonizado pela própria revivescência do passado irrecuperável, que melhor seria esquecer, mas que permanece vitoriosamente presente e indelével na memória afetiva do amante.
Nas redondilhas Babel e Sião, o saudosismo camoniano é comunicado e definido a partir de expressões plenas de sentimento que a linguagem própria do neoplatonismo ajuda a formular, reforçando a busca e a ânsia de perfeição concretizada na perseguição “da verdade única e essencial” que irrompe nos versos do poema. Neles, observa-se a superação da saudade da pátria e da mulher amada por uma saudade de índole mística que remete o poeta, através de uma suave e tranqüila rememoração, a um recuadíssimo tempo pretérito, anterior à sua humanidade, vivido no espaço transcendente e na plenitude do espírito:



Não é logo a saudade
das terras onde nasceu
a carne, mas é do Céu,
daquela Santa Cidade
donde esta alma descendeu.


Há ainda que referir uma outra variante da temática da saudade, que se compraz com a ausência física da mulher amada, cuja imagem se conserva inalterada e albergada no pensamento e no espírito do poeta. Sobre isso, comenta Jacinto do Prado Coelho: “se a tradição neoplatônica do dolce stil nuovo e de todo o lirismo petrarquista bastaria para explicar” e dimensionar o que há de imaterial e puro na mulher objeto do amor desses poetas, “a experiência pessoal da separação, o viver longe pela memória e pela fantasia, decerto contribuíram para dar mais humana, mais comovente autenticidade ao processo ascensional que a poesia amorosa” de Camões e de outros poetas testemunham. “Se a visão da mulher obriga o poeta ao êxtase, é porque se manifesta, não como objecto de lascívia, mas como deslumbrante força espiritual” 37

Conforme entende Maria Vitalina de Matos, o que se impõe nessa relação amorosa não é a satisfação do desejo, não é a posse da mulher amada; o que o amante deseja é o amor. “E é nesse amor do amor que reside a razão última da vivência camoniana”, da experiência dos poetas neoplatônicos. 38 Com efeito, esses poetas que privilegiam a ausência da mulher amada como um bem reservam para esta um lugar pouco relevante na cena amorosa: ela é apenas um objeto no qual o amor é projetado. Realmente, “o que eles amam é o amor, é o próprio fato de amar”, [...] Os amantes “têm necessidade um do outro para arderem em paixão, mas não um do outro tal como cada um é; e não da presença do outro, mas bem mais da sua ausência!” 39 Portanto o amor que nasce e que se nutre no espírito, o amor segundo a doutrina neoplatônica, assume um estatuto de eternidade que lhe permite transcender à própria morte, a mais radical, inexorável e irreversível forma de separação. Tais idéias são assimiladas por Camões e expressas nos versos finais de sua Elegia II:

Que se amor não se perde em vida ausente,
Menos se perderá por morte escura:
Porque, enfim, a alma vive eternamente,
E o amor é efeito da alma, e sempre dura.

Um dos motivos mais comuns da saudade radica na ausência do ser amado em razão da morte ou de um forçado afastamento. A dor da separação involuntária resulta em muitas composições que abordam dramaticamente toda a emoção da despedida ou da perda irremediável:

Alma gentil, que à firme Eternidade
Subsiste clara e valerosamente,
Cá durará de ti perpetuamente
A fama, a glória, o nome e a saudade. 40

O poeta maneirista, na vivência excruciante do infortúnio presente, busca, no passado, o tempo da felicidade resgatável, descobrindo, mais das vezes, que, no tempo em que embaído se imaginava feliz, já não o era, na medida em que a ansiada e crida felicidade se põe sempre no tempo já decorrido em relação a qualquer tempo a que o homem se reporte. O que existe, em termos psicológicos, é a aspiração por estados venturosos, em algumas ocasiões projetados no tempo futuro através do devaneio, e a nostalgia da felicidade já passada e perdida na lonjura do tempo e no obscuro sótão da memória.
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Notas

36- Maria Vitalina Leal de Matos, A lírica de Camões, p. 65
37- Jacinto do Prado Coelho, “Camões, um lírico do transcendente” in A letra e o leitor, p. 15-16.
38- Maria Vitalina Leal de Matos, Op. cit., p. 60-61.
39-Denis de Rougemont, O amor e o Ocidente, p. 64, apud Maria Vitalina Leal de Matos, Op. cit., p. 62.
40- Luís de Camões, Obras Completas. Ed. Sá da Costa, v. I. p. 299.1972.
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Zenóbia Collares Moreira. O Maneirismo na Lírica de Camões. Natal. 2007.

O Maneirismo na Lírica de Camões - Parte VIII.

A MELANCOLIA E O GOSTO DE SER TRISTE

Que, pois a minha pena é sem medida,
ali triste serei em dias ledos
e dias tristes me farão contente.

                           Camões

Claude-Gilbert Dubois lembra que a melancolia constitui um dos temas mais específicos da época maneirista. Ela é “uma obsessão” já presente no início do século XVI. A melancolia maneirista, faz-se acompanhar do saturnianismo, daí a conseqüente avalanche de poesias saturnianas, expressando a visão desencantada do real, a exacerbação do tédio existencial, o non sense do mundo, a irracionalidade humana.   Estado de alma que revela inquieta tristeza, a melancolia manifesta-se entre os artistas alastrando-se como uma epidemia, uma espécie de doença da moda. Enfim, fazia parte do pathos maneirista o gosto de ser triste, um certo culto à tristeza, tantas vezes e por vários modos expresso na lírica dos poetas do período, muitos dos quais exaltam a tristeza como a quintessência do bem, mórbida e masoquisticamente fruída.
É oportuno lembrar que o melancólico é sempre um ser infeliz e solitário, em estado de absoluta inaptidão para viver normalmente a experiência do cotidiano. Ensimesmado, o seu discurso gravita preferencialmente em torno do “eu”, privilegiando uma linguagem pejada de corrosivo pessimismo e de outros elementos que denunciam a sua natureza saturniana, de ser condenado a irremediável infortúnio. Dentre as inúmeras poesias de Camões que manifestam o seu estado melancólico, o soneto que se segue exemplifica com justeza o solipsismo do poeta, que traduz o seu visceral repúdio à convivência humana, aos lugares aprazíveis, buscando o isolamento em um cenário árido e áspero, adequado ao estado de tristeza que ensombra o seu espírito:

Onde acharei lugar tão apartado
E tão isento em tudo da ventura,
Que, não digo eu de humana criatura,
Mas nem de feras seja habitado?

Algum bosque medonho e carregado,
Ou selva solitária, triste e escura,
Sem fonte clara ou plácida verdura,
Enfim, lugar conforme a meu cuidado?

Porque ali, nas entranhas dos penedos,
Em vida morto, sepultado em vida,
Me queixe copiosa e livremente:

Que, pois a minha pena é sem medida,
Ali triste serei em dias ledos
E dias tristes me farão contente.


Outro exemplo de estados melancólicos oferece Camões na Écloga V, quando põe no monólogo do pastor o discurso ditado pela tristeza corrosiva e proferido em meio à natureza, junto à qual desabafa a amargura resultante do seu pesar pelo abandono e indiferença da mulher amada:

Aqui, com grave dor, com triste acento,
deu o triste pastor fim a seu canto;
co´o rosto baixo e alto pensamento,
seus olhos começaram novo pranto;
mil vezes fez parar no ar o vento,
e apiedou o Céu o coro santo;
as circunstantes selvas se abaixaram,
de dó das tristes mágoas que escutavam.
Com uma mão na face, e encostado
em sua dor tão enlevado estava,
que, como em grave sono sepultado,
não viu o Sol que já no mar entrava.
[...]
Já sobre um seco ramo estava posto
o mocho c´o funesto e triste canto,
a cujo som o pastor ergueu o rosto,
e viu a terra envolta em negro manto.
Quebrando então o fio a seu gosto,
mas não quebrando o fio a seu pranto,
pera melhor cuidar em seu cuidado,
levou pera os currais o manso gado.

Embora não sejam exclusividades do Maneirismo, a melancolia e a angústia avultam como estados psicológicos comuns aos maneiristas. De tal forma a melancolia se alastrou que se pode falar nela como “o mal do século”.
Os objetos tristes, os lugares apartados, agrestes e sombrios, a solidão e a tristeza tornam-se uma nova fonte de prazer. Há, por assim dizer, uma espécie de volúpia em relação aos estados depressivos e uma nova forma de hedonismo - o prazer masoquista da dor - donde o uso dos tópicos do “fartar-se de tristeza” e “do gosto de ser triste”, presentes na poesia de tantos poetas maneiristas. 
Essa vontade de tristeza, que se enquadra tão bem nos esquemas mentais do Maneirismo literário português, ter-se-ia originado da própria tradição poética lusitana. Basta que se volva o olhar para trás, na direção do passado literário português, para se ver que o comprazimento com a dor e o culto da tristeza, tão genuinamente lusitanos, são elementos já sobejamente expressos na poesia que antecedeu o Maneirismo, notadamente na de Bernardim Ribeiro, como tornam evidente os fragmentos que se seguem, colhidos das églogas do poeta:

Folgo de me entregar
à mágoa das minhas mágoas;
Chegou a tanto o meu mal
que não sei viver sem ele;

Minha dor
tanto ela é maior,
e eu mais contente dela.

Chorava as minhas mágoas
folgando muito com elas.

Esse manifesto prazer das mágoas, esse folgar com elas ressurgem de forma bem semelhante não somente na poesia de Camões como na de poetas seus contemporâneos.
Na Écloga II, Camões põe nas falas de Almeno palavras que traduzem a vontade de fartar-se de tormento e de dores: “Consinta meu cuidado/ Que me farte de ser desesperado”.
É ainda Camões quem escreve, em sua Canção X, estes versos que traduzem o caráter de permanência que o “gosto de ser triste” assume dentro de sua alma:

Não foi senão semente
dum comprido e amaríssimo tormento,
este curso contínuo de tristeza,
estes passos tão vãmente espalhados
me foram apagando o ardente gosto,
daqueles pensamentos namorados
em que eu criei a tenra natureza,
que, do longo costume da aspereza,
contra quem força humana não resiste,
se converteu no gosto de ser triste

Tais versos avultam como metáfora da transformação operada na natureza do poeta pela persistência dessa tristeza ao longo da sua trajetória existencial, aparecendo, por vezes, exaltada como puro bem, com o qual o poeta deseja viver e morrer.
Em suas Cartas de Ceuta, Camões expressa generosamente esse gosto de ser triste, em versos cujo parentesco com os de Bernardim é patente:

E por tão triste me tenho
que se sentisse alegria,
de triste, não viveria.  

Só tristeza ver queria,
pois minha ventura quer
que só a ela
conheça por alegria,
e que, se outra vez quiser,
moura por ela.

Em um outro passo das mesmas Cartas, o poeta acrescenta: “o que mais me entristece é ter contentamento, pois fujo dele, que minha alma o aborrece, porque lhe lembra que é virtude viver sem ele”. Evidentemente, a melancolia, a dor e a tristeza tornaram-se um prazer a mais, associado, numa estranha simbiose, com o masoquismo inerente ao culto do gosto de ser triste, mais uma vez afirmado nos seguintes versos:

Oh! Que doce penar! Que doce dores!
E se hua condição endurecida
também me negar a morte, por meu dano,
oh! Que doce morrer! Que doce vida!

Na lírica camoniana surpreende-se o mesmo prazer das mágoas, a mesma vontade de sofrimento, o mesmo apego ao mal que aflige Camões, revelados nas Cartas antes referidas. As éclogas são pontilhadas por expressões reiteradas de evocações à dor ou de comprazimento com elas:

Consinta o meu cuidado
que me farte de ser desesperado,
pera desenganar minha esperança,
que pera isso nasci
-pera viver na morte, e ela em mi.

Não cesse o meu tormento
De fazer o seu ofício,
que aqui tem ua alma ao jugo atada.
nem falte o sofrimento,
porque parece vício
pera tão doce mal faltar-me nada.

Esse culto idólatra, ou masoquista, da dor e do gosto de ser triste, já presente na obra de Bernardim Ribeiro e na de diversos poetas maneiristas, percorre a lírica camoniana em quase sua totalidade. Às vezes, a tristeza refina-se em desespero, a poesia derrama mágoas, agonias e apenas convém a infelizes, como declara Camões em sua Canção X, na qual conclama os desesperados para escutarem os seus versos:

Chegai desesperados, para ouvir-me,
E fujam os que vivem de esperança
Ou aqueles que nela se imaginam,
Porque Amor e Fortuna determinam
De lhe darem poder pera entenderem,
À medida dos males que tiverem.

Não raro a poesia se faz veículo de uma dolorosa exteriorização do poeta acerca da inexeqüibilidade de solucionar as suas próprias contradições internas, fundadas numa excruciante peleja travada no seu íntimo entre as aspirações da alma e as fraquezas da carne, entre os ideais espirituais e as miragens da vida e do mundo. Tal situação de conflito e desarmonia do homem consigo mesmo redunda numa angústia impotente, instauradora de estados melancólicos. O mundo subjetivo dos poetas passa, então, a ser construído em função das obsidiantes coordenadas dialéticas entre pecado e contrição penitente. A vida presente ensombra-se em sua falta de perspectiva e excesso de equívocos; o futuro insondável é uma incógnita. Conseqüentemente, a poesia torna-se uma viva expressão de nostalgia da felicidade passada e uma depressiva e queixosa reflexão acerca do caráter transitório do bem e da permanência do mal na alma do homem e no mundo.

Convictos da condenação do homem a um percurso de vida sem perspectiva de felicidade no presente e no futuro, os maneiristas não cultivam a esperança de ventura e de libertação das provações que os espreitam ao longo da sua existência terrena; antes assumem a consciência de que ela é um misto de desterro e cativeiro, no qual a alma, marcada pelo ferrete do pecado original, purga os padecimentos do exílio distante da graça divina. Toda a esperança que nutrem é projetada além da vida. A morte afigura-se, então, para o pecador, como a sua libertadora: ela representa o retorno do homem ao amparo de Deus, como filho pródigo festejado, trazido pelo arrependimento à casa do pai benevolente e misericordioso, após uma jornada de erros e pecados. Nas redondilhas Babel e Sião, Camões faz referência a um sentimento de nostalgia “da pátria divina”, da qual sua alma descendeu. Daí a sua certeza de que a saudade que o aflige é de outra natureza:


Não é logo a saudade
das terras onde nasceu
a carne, mas é do Céu,
daquela santa Cidade
de onde esta alma descendeu.

É notória a independência de Camões face ao esquema religioso de sua época. Exceção feita às Redondilhas Babel e Sião e à Elegia X, não se encontra em sua lírica o desenvolvimento de temáticas fundamentadas no ascetismo dominante nas obras dos poetas maneiristas do período pós-tridentino, principalmente da fase que se seguiu à derrota portuguesa em Alcácer-Quibir, dois anos antes da morte de Camões, ocorrida em 1580. A temática do amor divino surge, portanto, muito comprometida com o  ascetismo que se intensificou e dominou a sociedade portuguesa finissecular, decorrente da situação de miséria e humilhação que abateu o ânimo e o orgulho nacional do povo, com a pátria sob o domínio da Espanha.
Da desilusão acerca da bem-aventurança na vida terrena e da convicção de que toda esperança de mudar esse quadro é vã procede o gosto maneirista pela expressão de anseios e expectativas de bens espirituais, os únicos que assegurariam ao homem o resgate do sofrimento e a felicidade em uma outra forma de vida na eternidade, no Paraíso celestial, onde a utopia católica fincou os seus alicerces.

Na opinião de Gustav René Hocke, o Maneirismo não se reduz somente à expressão de “um sentimento trágico-saturniano da vida”: ele é também a manifestação de um amor a Deus, em plena desgraça trágica”. 106.
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Notas
106 -Gustav René Hocke, El mundo como laberinto, p. 406.
As poesias de Camões foram colhidas nas Obras Completas  de Luís de Camões, Livraria Sá da Costa, vol. II, 1972.
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Zenóbia Collares Moreira. O Maneirismo na poesia lírica de Camões. Natal, 2007.

3 de jan de 2012

Luís de Camões. “OS LUSÍADAS” - PARTE I


A idéia de escrever uma epopéia não teve a sua gênese em Luís de Camões. Já no século XV se manifestava tal idéia e o desejo de elaboração de um canto épico sobre a expansão portuguesa e as glórias da nação. Duas causas contribuíam para esse anseio generalizado: por um lado, a evolução literária, com o renascimento e o gosto pelos modelos da antiguidade. Os humanistas desejavam ressuscitar os gêneros clássicos, entre os quais se contava a epopéia, representada sobretudo pelos poemas homéricos – a Illiada e a Odisséia- e pela Eneida de Virgílio. Por outro lado, havia o tema a impor o livro: as façanhas marítimas dos portugueses, indo com seus barcos a todos os pontos do mundo. O que faltava era um grande poeta para escrevê-la. Camões surge, assim, no momento próprio, quando ele completa os vinte e um anos de idade. Todavia, vale salientar que o poeta não escreveu Os Lusíadas em pouco tempo. Não! Ele foi compondo a sua epopéia ao longo da vida procelosa que viveu longe da pátria, só vindo a publicá-la depois que retornou a Portugal, já envelhecido, pobre e doente. Daí os desvios maneiristas presentes em vários cantos na epopéia, notadamente nos exórdios e no último canto, pejado de melancólica tristeza, tão contrastante com o entusiasmo ufanista da Proposição. 

A ESTRUTURA EXTERNA

· A Proposição – parte introdutória, na qual o poeta anuncia o que vai cantar (Canto I, estrofes 1-3) · A Invocação – pedido de ajuda às divindades inspiradoras (A principal invocação é feita às Tágides, no canto I, estrofes 4 e 5, ás Ninfas do Tejo e do Mondego, no canto VII 78-82 e, finalmente, a Calíope, no Canto X, estrofe 8)· A Dedicatória – oferecimento do poema a uma personalidade importante. (Esta parte, facultaria, pode ter origem nas Geórgicas de Virgilio ou nos Fastos de Ovídio; não existe em nenhuma das epopéias da Antiguidade)· A Narração – parte que constitui o corpo da epopéia; a narrativa das ações levadas a cabo pelo protagonista. (Começando no Canto I, estrofe 19, só termina no Canto X, estrofe 144, apresentando apenas pequenas interrupções pontuais). Há ainda a mencionar os Escursos: reflexões, exortações, queixas, explícita ou implicitamente expressos na primeira pessoa pelo Poeta. A ele cabe iniciar e concluir o poema, fechar sete dos dez cantos, retornar quatro vezes à invocação da(s) Musa(s) e tecer comentários.

2. OS PLANOS NARRATIVOS

Obra narrativa complexa, Os Lusíadas constroem-se através da articulação de três planos narrativos, não deixando, ainda assim, de apresentar uma exemplar unidade de ação: O plano da viagem, o plano da história de Portugal e o plano mitológico. 
O plano narrativo principal é o que narra a viagem de Vasco da Gama à India. Continuamente articulado a este e paralelo a ele surge um segundo plano - o mitológico - que diz respeito à intervenção dos deuses do Olimpo durante a viagem. Encaixado no primeiro plano, tem lugar um terceiro, que é constituído pela História de Portugal, contada por Vasco da Gama ao rei de Melindo, por Paulo da Gama e por entidades dividas que vaticinam futuros feitos dos Portugueses. 
Segundo a visão de António José Saraiva, a viagem do Gama, desde a partida de Lisboa até ao desembarque na Ilha de Vênus, constitui a parte propriamente da narrativa. A viagem, na qual esperaríamos encontrar o núcleo vital do poema, não constitui realmente a ação, nem a intriga, nem as personagens propriamente ditas. Falta-lhes autonomia e, inclusivamente, uma mola intrínseca. Para que a viagem do Gama constituísse uma ação, seria necessário que os seus protagonistas se debatessem com as dificuldades e as resolvessem graças às suas forças e engenho. Não vemos o Gama arriscar-se e agir, desenredar-se de intrigas, nem manchar-se de sangue (exceto na escaramuça com indígenas no episódio de Fernão Veloso, por ele próprio referida ao rei de Melinde). Serve apenas para fazer discursos, para recitar os belos discursos de Camões. Falta-lhe inteiramente a presença, e não nos deixa uma recordação. Em suma, nem Gama nem os seus companheiros são verdadeiramente personalidades. Por outro lado, pode-se dizer que a viagem não tem história nem enredo. 
A partir do momento em que os entrevemos no meio do oceano, os nautas limitam-se a deixar-se transportar nas mãos dos deuses. Se estes não existissem, nunca saberíamos como é que os nautas chegaram à Índia, que perigos dominaram e de que maneira. A unidade orgânica do relato da viagem não reside nem na personalidade dos heróis, nem em qualquer intriga intrínseca à própria viagem. Há, todavia, no que respeita à luta com o mar, quadros de relevo e precisão, como a tromba marítima, o fogo-de-Santelmo e o escorbuto, e todo o canto V, um dos melhores do poema. Mas esses episódios, onde falta sempre a presença humana, são dados de forma descritiva, exemplificativa, numa seqüência oratória, e não narrativa, no discurso de Gama ao rei de Melinde. 
Por outro lado, a História de Portugal, exposta em discursos do Gama ao rei de Melinde e de Paulo da Gama ao Catual, além dos discursos proféticos de Júpiter, de Adamastor, da ninfa Sirena e de Tétis, em relação à história futura , não tem unidade intrínseca. Nota-se a ausência de uma ação de conjunto e a inexistência de heróis. Não é aqui, portanto, que está a mola do poema. 
A Intriga dos deuses abre com o consílio dos deuses no Olimpo, com que se inicia a ação do poema e fecha na Ilha de Vênus, com que ele, praticamente, se encerra. Formalmente, a unidade de “OS Lusíadas” é estabelecida pela intriga dos deuses. Eles estão em cena desde o princípio até ao fim do poema. Não se trata de mero quadro externo, ou de uma sobreposiçãomitológicas têm uma vida que falta nas personagens históricas: são elas as verdadeiras criaturas humanas, que sentem, se apaixonam, intrigam e fazem rebuliço. 
O Gama é muito mais hirto e frio que o gigante Adamastor, apesar de este ser um cabo. Ninguém tem o vulto, a irradiação, a força, a personalidade provocante de Vênus. Camões é o único escritor que soube dar viço e alma à mitologia greco-latina: à sua invocação, os deuses mortos renascem. Assim, o pensamento mais profundo e mais vivo de “Os Lusíadas” não é expresso pelos seus heróis e pelas ações ferozes por eles praticadas, mas sim o representado pelo mundo dos deuses e deusas. Por isso, decerto, aqueles não passam de sombras em comparação a estes; e por isso o poeta tem sempre pronta uma censura ou uma restrição para esses heróis, chamando glória de mandar, vã cobiça, bruta crueza e feridade aos impulsos que os movem. 

NO PLANO MITOLÓGICO, a ação consiste no seguinte: Vênus, ajudada por Marte, seu amante, pretende que os portugueses , seus protegidos, cheguem ao fim da viagem; Baco entende que o Oriente é domínio seu, esforça-se por impedir que prossigam a viagem. Para tanto concita contra eles a animosidade dos povos costeiros, consegue mover as divindades marítimas a desencadearem uma tempestade e, finalmente, induz os mouros de Calecute a conspirarem contra o Gama. Mas, Vênus, sempre vigilante, intervém junto ao seu pai, Júpiter, mobiliza as ninfas do mar, que impelem as naus para fora das zonas perigosas, e, seduzindo os deuses do mar, consegue aplacar a tempestade. Finalmente, para premiar os nautas, prepara-lhes, com a ajuda do filho Cupido, uma ilha de delícias, onde eles, conubiando-se com as Ninfas, se tornam, como elas, divinos e são admitidos à visão do cosmos. Vasco da Gama casa-se com Tétis, a deusa do mar. 
A espinha dorsal do poema está na intriga dos deuses. Nela se encontrará a verdadeira ação com princípio, meio e fim. Vênus, Baco, as Nereidas e Tétis, não são alegorias do Mar, do Oriente, etc. São personagens de uma história que é, afinal, a única do poema. Se suprimíssemos a fábula mitológica de “Os Lusíadas”, só restariam fragmentos de crônica rimada. 

OS ESCURSOS, o poeta tece considerações sobre diferenciadas matérias. Sendo o dono do seu discurso e não fazendo parte dos fatos históricos referentes ao passado de Portugal, o poeta comete desvios do modelo clássico da epopéia, rompendo aqui e ali com o cânone renascentista, na medida em que questiona esta mesma história, tece críticas severas ao Ilustre peito lusitano, faz acusações que poderiam comprometer a matéria épica. Contudo, tais desvios e rupturas do poeta em relação aos modelos da antiguidade clássica que se propunha seguir na proposição, não invalidam a epopéia camoniana. À luz dos estudos estilísticos e periodológicos contemporâneos, estas contradições o consagram “Os Lusíadas” como a única epopéia representativa do Maneirismo europeu, e não do Renascimento, como era considerada até os avanços dos estudos sobre a literatura e os estilos epocais surgidos no século XVI em Portugal. 

Continuaremos, a seguir, na postagem intitulada: “OS Lusíadas - PARTE II. 
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Autora: Zenóbia Collares Moreira Cunha