24 de abr de 2014

O Simbolismo Brasileiro na Poesia de Cruz e Souza




Cruz e Souza nasceu em 1861, na antiga Desterro (SC), Filho de pais escravos, foi adotado por senhores brancos e criado como filho. Recebeu educação esmerada e aos vinte anos já dirigia um jornal. Publicou Tropos e Fantasias em colaboração com Virgílio Várzea. Em função da hostilidade dos brancos, deixou sua terra. Percorreu o Brasil e foi recebido em vários lugares como um grande poeta. Casou-se com Gavita, negra, com quem teve quatro filhos. Após a morte do pai, da mãe e de dois filhos, lutou ainda com a loucura da mulher e com a miséria. Acometido de uma tuberculose violenta, faleceu em Minas Gerais sendo transportado para o Rio de Janeiro em um vagão de cavalos. Foi enterrado dignamente por iniciativa e à custa de José do Patrocínio.
O Simbolismo foi instaurado no Brasil em 1893, com a publicação das obras Missal (prosa) e Broquéis (poesia), ambas de autoria de Cruz e Sousa, considerado o maior autor simbolista da literatura brasileira. 
A poesia de Cruz e Sousa costuma apresentar as seguintes características: No plano temático, sobressaem a tematização da morte, da transcendência espiritual, da integração cósmica, do mistério, o sagrado, do conflito entre matéria e espírito, da angústia e da sublimação sexual, da escravidão e de uma verdadeira obsessão por brilhos e pela cor branca. No plano formal. aparecem as sinestesias, as imagens surpreendentes, a sonoridade das palavras, a predominância de substantivos e o emprego de maiúsculas, utilizadas com a finalidade de dar um valor absoluto a certos termos

Antífona:

Ó Formas alvas, brancas, Formas claras
De luares, de neves, de neblinas!...
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas...
Incensos dos turíbulos das aras... 
Formas do Amor, constelarmente puras,
De Virgens e de Santas vaporosas...
Brilhos errantes, mádidas frescuras
E dolências de lírios e de rosas... 
Indefiníveis músicas supremas,
Harmonias da Cor e do Perfume...
Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,
Réquiem do sol que a Dor da Luz resume... 

Visões, salmos e cânticos serenos,
Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes...
Dormência de volúpicos venenos
Sutis e suaves, mórbidos, radiantes... 
Infinitos espíritos dispersos, 
Inefáveis, edênicos, aéreos,
Fecundai o Mistério destes versos,
Com a chama ideal de todos os mistérios. 

Do Sonho as mais azuis diafaneidades
Que fuljam, que na Estrofe se levantem
E as emoções, todas as castidades
Da alma do Verso, pelos versos cantem 
Que o pólen de ouro dos mais finos astros
Fecunde e inflame a rima clara e ardente...
Que brilhe a correção dos alabastros
Sonoramente, luminosamente. 

Forças originais, essência, graça
De carnes de mulher, delicadezas...
Todo esse eflúvio que por ondas passa
Do Éter nas róseas e áureas correntezas...
Cristais diluídos de clarões álacres,
Desejos, vibrações, ânsias, alentos
Fulvas vitórias, triunfamentos acres,
Os mais estranhos estremecimento... 
Flores negras do tédio e flores vagas
De amores vãos, tantálicos, doentios...
Fundas vermelhidões de velhas chagas
Em sangue, abertas, escorrendo em rios... 

“Antífona” foi composto para figurar como introdução ao livro Broquéis, Por suas qualidades estéticas e por condensar em seus versos muitas características fundamentais do Simbolismo, o poema passou a ser considerado como uma perfeita expressão da poesia simbolista, especialmente pelo talento e domínio do poeta para o uso de sinestesias, que se esvaem no indefinido e no abstrato.


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A obsessão do poeta pela cor branca, seus sinônimos e alusões a esta cor, está bem nítida em Antífona, evocada neste poema e em muitos outros. Todavia é a sinestesia, tão valorizada pelos simbolistas, que ocupa lugar privilegiado ao longo do poema. O tom vago, impreciso, nebuloso que resulta na poesia ilógica, obscura, fechada é bem típico da poesia simbolista, pouco preocupada com a clareza da linguagem. Portanto, trata-se de uma poesia que sugere, que insinua, muito mais do que diz.
Broquéis é a obra que inaugura, em 1893, o Simbolismo no Brasil. Seu autor, Cruz e Sousa, está entre os quatro melhores simbolistas da literatura universal, o que já pode ser percebido no livro em questão.
Poeta capaz de realizar vôos tão altos quanto os mestres franceses, considerado até descendente de Baudelaire e de seu satanismo, esteve sempre marcado pelo estigma da dor do emparedamento, o que o fez ansiar desesperadamente por libertação. Esse desejo torna inteligível sua obsessão por imagens brancas; no mínimo, é uma explicação menos simplista do que uma outra, mais antiga, que tenta enxergar um poeta negro rejeitando a sua cor. Acreditar nesta tese é esquecer a primeira das três fases de sua obra, em que tematizou a dor de ser negro, por meio de poemas sob a influência do Castro Alves abolicionista. 
Mas o Cisne Negro, como é chamado, busca sempre as alturas, por isso se liberta da fronteira da pele e sente uma dor mais ampla: a de ser Homem. 
Raça, religião, pátria são questões insignificantes agora, já que se tornou o vate do gênero humano e de seu sofrimento. Essa é a fase inaugurada com Broquéis (no entanto, sua melhor fase é a terceira, em que se liberta da parede da carne e busca tematizar a dor de ser alma. Nesse estágio, passa a aceitar tal agonia como elemento importante, necessário para seu engrandecimento). Sua grandiosidade já se vê presente no primeiro poema, transcrito abaixo.

ANTÍFONA II

E dolências de lírios e de rosas ... 
Indefiníveis músicas supremas
Harmonias da Cor e do Perfume... 
Horas do Ocaso, trêmulas, extremas, 
Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume... 
Visões, salmos e cânticos serenos, 
Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes... 
Dormências de volúpicos venenos 
Sutis e suaves, mórbidos, radiantes ... 
Infinitos espíritos dispersos, 
Inefáveis, edênicos, aéreos, 
Fecundai o Mistério destes versos
Com a chama ideal de todos os mistérios. 
Do Sonho as mais azuis diafaneidades 
Que fuljam, que na Estrofe se levantem
E as emoções, todas as castidades 
Da alma do Verso, pelos versos cantem.
Que o pólen de ouro dos mais finos astros
Fecunde e inflame a rima clara e ardente... 
Que brilhe a correção dos alabastros 
Sonoramente, luminosamente.

Forças originais, essência, graça 
De carnes de mulher, delicadezas... 
Todo esse eflúvio que por ondas passa 
Do Éter nas róseas e áureas correntezas..
Cristais diluídos de clarões alacres, 
Desejos, vibrações, ânsias, alentos 
Fulvas vitórias, triunfamentos acres, 
Os mais estranhos estremecimentos...
Flores negras do tédio e flores vagas
De amores vãos, tantálicos, doentios...
Fundas vermelhidões de velhas chagas
Em sangue, abertas, escorrendo em rios...
Tudo! vivo e nervoso e quente e forte,
Nos turbilhões quiméricos do Sonho,
Passe, cantando, ante o perfil medonho
E o tropel cabalístico da Morte...

Para fluir esse grandioso poema, o leitor deve deixar de lado qualquer tentativa de entendê-lo e apenas liberar o inconsciente – exatamente o grande postulado dos simbolistas. Mesmo que teime em entendê-lo, não irá conseguir muito, tal a profusão de imagens herméticas, ou seja, de difícil compreensão, que há nele. O máximo que se obterá será entender “Antífona” como uma invocação a formas para que fecundem o mistério dos versos do poeta. É, portanto, um manifesto simbolista ou até mesmo uma profissão de fé da escola.

Mas o que vale notar é a musicalidade expressiva, tanto na aliteração do /s/ quanto no predomínio de inúmeras palavras cujas sílabas tônicas tenham vogais extensas (“formas”, “alvas”, “claras”, “luares”). Há a recriação de um canto religioso (católico, budista, hindu, tanto faz, todos alongam vogais), reforçando o clima do poema anunciado pelo título (antífona é um curto versículo recitado
ou cantado pelo celebrante, antes e depois de um salmo, e ao qual respondem alternadamente duas metades do coro) e por vários vocábulos como “santa”, “virgem”, “incensos”, “turíbulos”, “aras”, “réquiem”.
O mais incrível é que essa religiosidade acaba-se misturando a imagens eróticas como “volúpicos venenos”, ”carnes de mulher”. É o lado maldito de Cruz e Sousa manifestando-se, também visto no poema abaixo.

DILACERAÇÕES

Ó carnes que eu amei sangrentamente,
ó volúpias letais e dolorosas
essências de heliotropos e de rosas
de essência morna, tropical, dolente...
Carnes, virgens e tépidas do Oriente
do Sonho e das Estrelas fabulosas,
carnes acerbas e maravilhosas,
tentadoras do sol intensamente...

Passai, dilaceradas pelos zelos,
através dos profundos pesadelos
que me apunhalam de mortais horrores...
Passai, passai, desfeitas em tormentos,
em lágrimas, em prantos, em lamentos
em ais, em luto, em convulsões, em dores...

Esse soneto é um belo e típico exemplo do erotismo maldito de Cruz e Sousa. Note que ele faz, na primeira estrofe, uma invocação, ainda que vaga, a carnes que amou “sangrentamente”. Se unirmos essa ideia ao título do poema e aos sinônimos em gradação da última estrofe, descobriremos uma mistura entre amor e dor, sofrimento. Estaria o poeta expressando seus impulsos sádicos? Ou estaria relatando a perda da virgindade? Difícil descobrir, já que se assume aqui o típico tom impreciso, vago dos simbolistas.

ENCARNAÇÃO

Carnais, sejam carnais tantos desejos
Carnais, sejam carnais tantos anseios,
Palpitações e frêmitos e enleios,
Das harpas da emoção tantos arpejos...
Sonhos, que vão, por trêmulos adejos,
À noite, ao lugar, entumescer os seios
Lácteos, de finos azulados veios
De virgindade, de pudor, de pejos...
Sejam carnais todos os sonhos brumos
De estranhos, vagos, estrelados rumos
Onde as Visões do amor dormem geladas...
Sonhos, palpitações, desejos e ânsias
Formem, com claridades e fragrâncias,
A encarnação das lívidas Amadas! 

Enfatizando a temática sexual, esse soneto mostra a violenta atração do poeta por imagens de forte sensualidade, repetidas vezes, como nos versos: “Carnais, sejam carnais tantos desejos”. Essa carnalidade explícita é suavizada na figura das “lívidas Amadas”, embora reforcem a sua obsessão pela cor branca e por tudo aquilo que lhe sugere brancura: “...os seios lácteos, de finos e azulados veios...”. A imagem se completa com a sinestesia provocada pelos versos: “sonhos, palpitações desejos e ânsias / Formem, com claridades e fragrâncias...”. A cor e o cheiro se fundem como elemento essencial do erotismo – cujo desejo nunca foi plenamente realizado. Mais marcante do que esse soneto, no campo amoroso, é o exemplo a seguir.

LÉSBIA
Cróton selvagem, tinhorão lascivo,
Planta mortal, carnívora, sangrenta,
Da tua carne báquica rebenta
A vermelha explosão de um sangue vivo.
Nesse lábio mordente e convulsivo,
Rir, ri risadas de expressão violenta
O Amor, trágico e triste, e passa, lenta,
A morte, o espasmo gélido, aflitivo...
Lésbia nervosa, fascinante e doente,
Cruel e demoníaca serpente
Das flamejantes atrações do gozo.
Dos teus seios acídulos, amargos,
Fluem capros aromas e os tetargos,
Os ópios de um luar tuberculoso...

Lésbia é a mulher livre que se entrega aos prazeres carnais. O título desse soneto, portanto, já anuncia a sensualidade erótica malditas que dominarão todos os seus versos. Vale assinalar a aliteração, na primeira estrofe, de /c/, /t/, /p/, /b/, /l/, somada às imagens relacionadas ao vermelho (a associação de cores e vogais a ideias = Lei das Correspondências), formando um conjunto de elementos que sugerem o orgasmo explodindo pelo corpo da amada, o que é aludido também no verso 5. 
Mesmo envolvido, o eu-lírico prossegue com seu espetáculo luxurioso, informando que, no clímax
sexual, vê na parceira o Amor e a Morte (Eros e Tanatos), para depois chamá-la de serpente demoníaca e ainda dizer que seus seios exalam “capros aromas”, tornando-a maligna. 
Vale salientar que “capros” é adjetivo que faz referência a bode, animal que na mitologia cristã representa o demônio. Assim, a amada do eu-lírico é mais uma entidade demoníaca que uma mulher real, de carne e osso. Aliás, um procedimento muito comum em Cruz e Sousa. 
Enfim, Cruz e Sousa produz poesia do mais alto nível, expressando a dor humana de forma grandiosa. Merece, portanto, o máximo respeito no quadro de nossos poetas.

Sinfonias do Ocaso
Musselinosas como brumas diurnas
descem do ocaso as sombras harmoniosas,
sombras veladas e musselinosas
para as profundas solidões noturnas.
Sacrários virgens, sacrossantas urnas,
os céus resplendem de sidéreas rosas,
da lua e das Estrelas majestosas
iluminando a escuridão das furnas. 
Ah! por estes sinfônicos ocasos
A terra exala aromas de áureas vasos,
Incensos de turíbulos divinos.
Os plenilúnios mórbidos vaporam...
E como que no Azul plangem e choram
cítaras, harpas, bandolins, violinos... 

O soneto acima é construído com a mistura de um vocabulário ora litúrgico: “”Sacrários”, “virgens”, “sacrossantas”, “incensos”, “turíbulos”, “divinos” e ora cósmico: “ocaso”, “céus”, “sidéreas”, “Lua”, “Estrelas”, criando imagens de luz, de transparência, de brancura que promovem uma “viagem” para além do tempo e do espaço: uma viagem espiritual, abstrata.
É muito forte a presença da sinestesia em que o apelo olfativo “a terra exala aromas de áureos vasos.” Se encontra com sons musicais: “E como que no Azul plangem e choram cítaras, harpas, bandolins, violinos...” sensações anunciadas no título através da palavra Sinfonia.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em Missal, o autor diz: “Para mim, as palavras, como têm colorido e som, têm do mesmo modo sabor”. Essa concepção de poesia foi a marca de Cruz e Sousa. Tendo começado a escrever ainda sob a influência parnasiana e condoreira, compôs, no início de sua atividade literária, poemas antiescravagistas.
Mas a força da estética simbolista o conquistou definitivamente:  abusou de uma “linguagem menos precisa e lógica, mais sugestiva e musical por meio do ciframento, da ambigüidade e de associações inesperadas ou inexplicáveis, para que ela pudesse aproximar-se daquilo que a razão seria incapaz de perceber, atingindo assim algum tipo de transcendência”. Por isso, chegou-se a dizer que sem ele não teríamos essa estética em nossa literatura.
Autor da mais famosa aliteração simbolista, cuja musicalidade tornou inigualável esta estrofe do poema Violões que choram:

“Vozes veladas, veludosas vozes,
Volúpias dos violões, vozes veladas,
Vagam nos velhos vórtices vorazes
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas...”

Embora inicialmente estivesse preso a um subjetivismo, no qual expressa sua dor e sofrimento de
homem negro, sua obra evoluiu para posições universalizantes ao sintonizar-se com a dor e a angústia do ser humano.  Cruz e Souza em nada fica a dever aos grandes poetas da literatura francesa.


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