26 de abr de 2015

Melancolia e tristeza na poesia de Camões.

Quero aqui, num lugar hermo e sobrio,
Como nocturno pássaro ficar 
De meus olhos fazendo um grande rio. 
Fernão Correia de Lacerda 

Claude-Gilbert Dubois lembra que a melancolia constitui “um dos temas mais específicos da época” em que Camões produziu sua obra, ela é “uma obsessão” já presente no início do século XVI. À melancolia maneirista, faz-se acompanhar do saturnismo, 102 daí a conseqüente avalanche de poesias saturnianas, expressando a visão desencantada do real, a exacerbação do tédio existencial, o non sense do mundo, a irracionalidade humana. 
Estado de alma que revela inquieta tristeza, a melancolia manifesta-se não somente entre os artistas como entre os escritores, alastrando-se como uma epidemia, uma espécie de doença da moda. Enfim, fazia parte do pathos maneirista o gosto de ser triste, um certo culto à tristeza, tantas vezes e por vários modos expressados na lírica dos poetas do período, muitos dos quais exaltam a tristeza como a quinta-essência do bem, mórbida e masoquisticamente fruída. 
André Falcão de Resende, na poesia que se segue, descreve muito bem esse mal vivenciado por ele próprio, subjugado à tirania dos seus fantasmas interiores: 

Melancolia é mal, que segue aquilo 
De que foge e se aparta a outra gente. 
Os lugares contrários a ter gosto, 
Nesses sente algum gosto, se o sente, 
E pois eu vim a dar nesta doença 
No cabo de mil outras, e mil nojos, 
Que d’ alegre e contente me fizeram 
Melancólico, triste e pensativo, 
Não é muito também que busque parte. 103

É oportuno lembrar que o melancólico é sempre um ser infeliz e solitário, em estado de absoluta inaptidão para viver normalmente a experiência do cotidiano. Ensimesmado, o seu discurso gravita preferencialmente em torno do “eu”, privilegiando uma linguagem pejada de corrosivo pessimismo e de outros elementos que denunciam a sua natureza saturniana, de ser condenado a irremediável infortúnio.
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O soneto, que se segue, exemplifica com justeza uma outra faceta da expressão poética da melancolia: aquela em que a atitude solipsista do sujeito traduz o seu visceral repúdio à convivência humana, aos lugares aprazíveis. Daí a conseqüente busca de isolamento em um cenário árido e áspero, adequado ao estado de tristeza que ensombra o espírito do poeta: 

Onde acharei lugar tão apartado 
E tão isento em tudo da ventura, 
Que, não digo eu de humana criatura, 
Mas nem de feras seja habitado?

Algum bosque medonho e carregado, 
Ou selva solitária, triste e escura, 
Sem fonte clara ou plácida verdura, 
Enfim, lugar conforme a meu cuidado?

Porque ali, nas entranhas dos penedos, 
Em vida morto, sepultado em vida, 
Me queixe copiosa e livremente:

Que, pois a minha pena é sem medida, 
Ali triste serei em dias ledos 
E dias tristes me farão contente. 104

Outro exemplo da busca de mórbido isolamento derivado de estados melancólicos oferece Frei Agostinho da Cruz, quando põe nas palavras pronunciadas por Limabeu o discurso da rejeição à “humana gente”, em meio à natureza selvagem , junto à qual desabafa a amargura resultante do seu desengano com os homens e o mundo: 

Testemunhas sois vós das queixas minhas, 
E porque quero, mais antes que gente, 
As feras e serpentes por vizinhos. 105

Deixei de conversar humana gente 
Para me afeiçoar cá no deserto 
A brutos animais mais brutamente. 106

Embora não sejam exclusividade do Maneirismo, a melancolia e a angústia avultam como estados psicológicos comuns aos maneiristas. De tal forma ela se alastrou que se pode falar nela como “o mal do século”. Os objetos tristes, os lugares apartados, agrestes e sombrios, a solidão e a tristeza tornam-se uma nova fonte de prazer. Há, por assim dizer, uma espécie de volúpia com os estados depressivos e uma nova forma de hedonismo: o prazer masoquista da dor, donde o uso dos tópicos do “fartar-se de tristeza” e “do gosto de ser triste” presentes na poesia de tantos poetas maneiristas.

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