21 de dez de 2015

Lisbon Revisited (1926) - Álvaro de Campos


O autor do poema Lisbon Revisited (1926) é Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa.
O tema deste poema é o eu do sujeito lírico, frustrado e desiludido de tudo, revê-se na sua cidade, tão fantasma como ele. Problema de Fernando Pessoa: crise de identidade do eu-ortônimo agora em Álvaro de Campos.
Poema da terceira fase de Álvaro de Campos, é o regresso à abulia, ao tédio, à nostalgia de um bem perdido. Melancólico, devaneador, desiludido, cosmopolita, Campos aproxima-se da poética de Pessoa ortónimo no cepticismo, nas saudades da infância, na dúvida quanto à sua identidade, na fragmentação do eu. 
O verso 1 revela o desencanto pela vida (sentimento abúlico). No primeiro momento do texto, o sujeito poético, abúlico e frustrado, manifesta o seu desencanto pela vida. 
Nos primeiros versos do segundo momento, o sujeito poético revê a cidade da sua infância que ele considera “pavorosamente perdida” e “triste e alegre” neste último exemplo, numa alusão às duas cidades que conheceu, a da infância e da vida de adulto. Evidencia a dúvida sobre a sua identidade (Verso 34) e refere-se à multiplicidade de eus que vivem nele (verso 37 a 39). 
O eu fala da cidade como a revê e de como se sente nela, “Transeunte inútil”, “Estrangeiro”, “Casual” e “Fantasma” (Verso 42 a 48). Do verso 54 ao 58, o final do segundo momento, a perda da imagem está relacionada com a perda de identidade (verso 55 a 56) e pode-se mesmo pensar na recordação da figura materna e da infância quando refere “em que me revia idêntico”. 
No verso 57 tem-se a fragmentação do eu. Ainda no segundo momento do texto encontra-se uma estreita relação entre o título do poema e o desenvolvimento do tema (ver verso 32). 
Os verbos no presente do indicativo denunciam o estado de espírito do sujeito poético, a sua frustração face aos fracassos dos seus projetos / sonhos do passado. 
O texto é narrativo e descritivo com verbos predominantemente no presente do indicativo; substantivos e adjetivos que descrevem a cidade e a alma do poeta: negatividade e tristeza. 
No poema Lisbon Revisited (1926), o espaço relaciona-se com o itinerário interior. O olhar que avista a cidade é filtrado pela subjetividade de um eu que, apesar de revisitá-la, não se encontra mais nela. Mais uma vez a infância aparece como um outrora privilegiado, fissura do eu que tem no agora a solidão, o cansaço e o tédio como determinantes. 
O poema, sem dúvida, estabelece um diálogo de tensão e ruptura, pois, o cansaço toma conta. 
Poema na íntegra: 
1. Nada me prende a nada. 
2. Quero cinqüenta coisas ao mesmo tempo. 
3. Anseio com uma angústia de fome de carne 
4. O que não sei que seja — 
5. Definidamente pelo indefinido... 
6. Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto 
7. De quem dorme irrequieto, metade a sonhar. 
8. Fecharam-me todas as portas abstratas e necessárias. 
9. Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua. 
10. Não há na travessa achada o número da porta que me deram. 
11. Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido. 
12. Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota. 
13. Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados. 
14. Até a vida só desejada me farta — até essa vida... 
15. Compreendo a intervalos desconexos; 
16. Escrevo por lapsos de cansaço; 
17. E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia. 
18. Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme; 
19. Não sei que ilhas do sul impossível aguardam-me naufrago; 
20. ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso. 
21. Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma... 
22. E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei, 
23. Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa 
24. (E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas), 
25. Nas estradas e atalhos das florestas longínquas

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